Os episódios recentes do sequestro de um ônibus na ponte Rio-Niterói por um jovem que aparentemente exibia transtornos mentais e do aluno de uma escola do Rio Grande do Sul que levou uma machadinha para ferir os colegas são sintomas, cotidianamente renovados, das doenças sociais próprias de nossa cultura de violência. Esta, por representar uma questão social muito complexa, tem grande poder de mobilizar nossa atenção, causar perplexidade, medo, raiva, tristeza e escancarar a insuficiência de nosso entendimento e atuação sobre o problema. Afinal, o que querem dizer esses jovens? Por que escolhem palcos como estes para performar atos tão desesperados? É possível compreender algo por trás de suas ações?

É importante frisar que há muitas linhas de pesquisa em psicologia que se ocupam de estudar o fenômeno da violência escolar, inclusive, em suas manifestações mais terríveis, como os “school shootings” (tiroteios na escola). A partir desses estudos, é possível estabelecer categorias mais ou menos gerais sobre os autores desses atos, que geralmente convergem em alguns sentidos: vivências de sofrimento psíquico, isolamento ou retraimento social, grandes doses de frustração, exposição a humilhações repetidas e assim por diante. Igualmente preocupante ao ato de causar violências ao outro, essa soma de fatores pode levar jovens a causarem violência contra si mesmos, adotando comportamentos autolesivos, ato de se machucar intencionalmente de forma superficial ou moderada, ou até mesmo tentativas de acabar com a própria vida.

Contudo, por mais que se possam estabelecer algumas características gerais ou pontos em comum entre esses episódios, as vivências de sofrimento são sempre muito pessoais e particulares, impossíveis de serem compreendidas a partir de generalizações. Isto quer dizer que não teremos uma compreensão suficientemente adequada e precisa sobre esses fenômenos que causam tanta perplexidade se não construirmos espaços em que as pessoas, especialmente dentro da escola, possam falar e ser escutadas.

Sem isso, como alguém em grande confusão e sofrimento poderá transformar sua frustração em palavras que possam ser ouvidas e atos que possam ser entendidos? Muitas vezes, ao ouvir um relato de grande sofrimento pessoal, nos sentimos impotentes por não poder ajudar ou contribuir com nada objetivamente. Porém, a própria escuta já cumpre uma função muito importante. Nas palavras de Carl Rogers, um dos mais célebres psicólogos do século XX:

“Quando (…) alguém realmente o escuta sem julgá-lo, sem tentar assumir a responsabilidade por você, sem tentar moldá-lo, é muito bom. (…) Quando sinto que fui ouvido e escutado, consigo perceber meu mundo de uma maneira nova e ir em frente. É espantoso como problemas que parecem insolúveis se tornem solúveis quando alguém escuta. Como confusões que parecem irremediáveis viram riachos relativamente claros correndo, quando se é escutado”.

Muitas das perguntas que surgem quando episódios como estes ocorrem ainda não podem ser respondidas com segurança. Mas uma coisa é certa: nos situaremos melhor diante de tudo isso quando houver uma mudança cultural, principalmente no ambiente escolar, no sentido de valorizar espaços de diálogo, de expressão e de escuta. Esses aportes são fundamentais para que nos sintamos verdadeiramente compreendidos e possamos expressar nossas dores de maneiras menos trágicas.

Pode ser tentador tentar explicar ou justificar um fenômeno triste e complexo como esse localizando o problema “dentro” dos indivíduos doentes, ou com “transtornos mentais”. Porém, entendemos que as partes não podem ir bem em um todo que vai mal. Construir uma Cultura de Paz, por meio da Educação Socioemocional, requer esforços de todos e é o caminho mais seguro para uma verdadeira transformação social.