A hiperexposição nos distancia muito da realidade do que somos: mostramos apenas o melhor de nós mesmos, em uma exigência de felicidade permanente.[1]

Marcelo Veras, autor de Selfie, Logo Existo

A recente mudança em relação à ocultação do número de “likes” recebidos nas publicações da rede social Instagram gerou reações contraditórias, bem como algumas reflexões sobre em que medida estamos nos tornando reféns da avaliação/julgamento alheio de nossa imagem em meio virtual. 

De acordo com Adam Mosseri[2], presidente do Instagram, a intenção da rede social é a de que ela não signifique um lugar de competição, e sim, um ambiente propício à conexão entre as pessoas, preocupando-se menos com a contagem dos likes.

De fato, os resultados de pesquisas recentes comprovam que a comparação e a competição que redes sociais como o Instagram afetam a saúde mental dos jovens. Um estudo publicado em 2017 pela Royal Society for Public Health[3], com quase 1.500 indivíduos entre 14 e 24 anos do Reino Unido, mostrou que o compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente o sono, a autoimagem e aumenta o medo dos jovens de ficarem por fora dos acontecimentos e tendências (FOMO, fear of missing out). De acordo com a pesquisa, o site menos nocivo à saúde mental dos jovens é o YouTube. Twitter, Facebook e Snapchat ficaram em segunda, terceira e quarta posições, respectivamente.

Na adolescência – fase em que os processos de construção de identidade e autoimagem são cruciais -, verifica-se que a superexposição e a decorrente comparação entre perfis em redes sociais como o Instagram podem gerar ansiedade e um sentimento de insuficiência perante a imagem “perfeita” que influencers desses sites desejam transparecer.

Outro estudo, publicado na revista médica especializada The Lancet Child & Adolescent Health[4], em que mais de 12 mil adolescentes em idade escolar na Inglaterra foram entrevistados dos 13 aos 16 anos, constatou que meninos e meninas que verificavam suas redes mais de três vezes por dia tinham pior saúde mental e maior sofrimento psicológico. A pesquisa também revela que as meninas são mais vulneráveis aos efeitos prejudiciais do uso excessivo das redes sociais, bem como mais propensas a dizer que são menos felizes e mais ansiosas à medida que os anos avançaram, ao contrário dos meninos.

No entanto, a pesquisa citada também constata que não necessariamente as redes sociais fazem mal aos jovens. A pesquisadora Dasha Nicholls, envolvida no estudo, afirma que o importante é encontrar um equilíbrio: “Não é o tempo na rede social em si, a questão é quando ela desloca os contatos e atividades da vida real.”

Assim, diante da realidade dos desafios presentes nos meios virtuais, vale sempre lembrar que o desenvolvimento e fortalecimento de competências socioemocionais como a autonomia e consciência emocional, desde a infância, proporcionam mais subsídios para que o equilíbrio e o bem-estar com o uso das redes sociais seja alcançado. Os jovens que têm a oportunidade de participarem de um processo consistente de educação socioemocional lidam melhor com suas emoções e com as dos outros, interagindo de modo mais cooperativo e empático em todas as interações sociais do cotidiano – inclusive nas redes sociais.

Referências

[1] Disponível em: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/comportamento/redes-sociais-espalham-epidemia-de-mal-estar-pela-humanidade-diz-psicanalista,a1b40ab63808b114c61afe72b44fae021zvv8lmg.html

[2] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/07/o-instagram-esta-escondendo-likes-isso-reduzira-a-ansiedade.shtml

[3] Disponível em: https://www.rsph.org.uk/about-us/news/instagram-ranked-worst-for-young-people-s-mental-health.html

[4] Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/redes-sociais-nao-fazem-mal-desde-que-nao-substituam-atividades-mais-saudaveis-diz-estudo,2abe192ad36c33bf0dfe88c39ee5c5626deo4w9o.html