A ansiedade é uma velha conhecida dos brasileiros. Seja pela sensação de insegurança dos grandes centros urbanos, pelos sempre renovados modismos da indústria da qualidade de vida que dita o que, quando e como devemos consumir ou mesmo pelos receios naturais ligados às incertezas sobre o trabalho e sobre nosso sustento, a ansiedade sempre espreita ao lado. Tanto é que o Brasil ocupa o preocupante primeiro lugar no ranking dos países mais ansiosos do mundo, segundo o mais recente levantamento da OMS (Organização Mundial de Saúde), com cerca de 9,3% da população com sinais de transtorno de ansiedade.

Por si só a ansiedade não é necessariamente um mal. Na verdade, ela representa uma importante aquisição evolutiva para nossa espécie. A capacidade de antecipar perigos, não apenas reagir a eles quando ameaças efetivamente se apresentavam, – supondo um predador em potencial em meio à vegetação, mesmo que não houvesse nada lá, por exemplo – em grande parte, assegurou a sobrevivência de nossos ancestrais.

Além de antecipar perigos imaginários que ainda não se concretizaram, uma dose regulada de ansiedade pode melhorar nosso desempenho nas mais diversas áreas. Por exemplo, um pequeno sentimento de insegurança faz com que um aluno se prepare melhor para um teste, por exemplo, revisando suas dúvidas; ou um dosado nível de tensão pode aumentar ainda mais a performance de um atleta, do que se estivesse completamente relaxado. Então, a grande questão é a da dosagem, o que podemos chamar também de equilíbrio.

Outra questão importante é a de como encorajamos as crianças – e a nós mesmos – a encararmos esse fenômeno natural? Não raro, as crianças já se apropriaram da palavra “ansiedade”, e a utilizam em distintos contextos, e nossas respostas a isso influenciam muito a relação que eles poderão desenvolver com essa emoção. Por exemplo, antes de sua festinha de aniversário, uma criança pode falar “estou muito ansiosa!”. Assim, a reação do adulto pode ser tensa e preocupada, respondendo algo como “então se acalme!”, ou, poderia ser leve e descontraída, algo como “eu também! Mal posso esperar, vai ser demais!”. Uma ou outra reação poderá convidar a criança a desenvolver um ou outro tipo de relação com a ansiedade.

Precisamos, como adultos de referência e mediadores das relações que as crianças vão estabelecendo, ficar atentos às influências que apresentamos a elas. Nossos exemplos estabelecem fortes modelos de comportamento. Ensinar a criança pelo medo, isto é, medo de brincar, de se aventurar, de tentar algo novo, de estar se comportando de modo “feio” ou inadequado, pode vir a ser um transtorno de ansiedade no futuro. Até jargões aparentemente inofensivos como clássico “o que você vai ser quando crescer?” criam nas crianças expectativas precoces sobre o futuro. Outro empecilho para se viver mais plenamente está ligado às mídias digitais, que, por um lado, facilitaram a troca de informações e encurtaram os espaços do mundo, mas, por outro, se mal utilizadas, podem nos “tirar” o tempo e o espaço que temos graças à “sedução” de paraísos virtuais.

Por isso, é tão importante filtrar esses equívocos culturais que impomos às crianças e prepará-las para lidar com a vida e suas incertezas sem tanto pavor. Expectativas, receios, anseios e preocupações não isentam ninguém, todos as temos, por causas justificáveis ou meramente imaginárias. Então, o melhor é que se ensine a lidar com elas, com Educação Socioemocional e um programa que possa sistematizar conteúdos que busquem melhoria da convivência e consequentemente uma sociedade menos ansiosa.