De acordo com o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, em parceria com o Instituto Locomotiva, 51% dos professores já sofreram pessoalmente algum tipo de violência em suas escolas estaduais. Embora a agressão verbal seja o tipo de violência mais recorrente sofrida pelos professores, uma vez que atinge 44% dos educadores, bullying, agressão física, furtos e roubos e discriminação atingem juntas 28% dos professores.¹

Notícias como essa refletem a cruel realidade de muitos educadores pelo Brasil afora e favorecem o mal-estar docente. Lidar com situações de violência, além dos baixos salários e precárias condições de trabalho, não raro, deixam os professores adoecidos física ou emocionalmente. Tanto é que a profissão figura no topo do ranking das profissões mais insalubres, comparada à de mineiros de carvoarias.

Em meio a esse cenário, vemos o espaço da escola, por meio da figura do professor, muitas vezes, representando a única oportunidade que algumas crianças e jovens vão encontrar de serem aceitos, acolhidos, valorizados, incentivados, elogiados e celebrados.

Ora, como pode, então, o professor suprir essas fundamentais demandas afetivas dos alunos se estiver também esgotado, com medo e mágoa, sem esperanças? Que oportunidades tem o professor de professar seus sentimentos e compartilhá-los com os alunos, encorajando-os a fazer o mesmo? Quem cuida do educador?

Nessa direção, a pesquisadora em Educação da FFCLRP-USP, Elaine Assolini², defende a relevância de serem organizados espaços discursivos para o “falar de si” dos educadores, com o entendimento segundo o qual professores que não conhecem a si mesmos, que não aprenderam a se ouvir, dificilmente conseguirão escutar os alunos pelos quais serão responsáveis. Além disso, o “falar de si”, de acordo com a estudiosa, possibilita ao professor organizar a sua subjetividade, cuidar dela, condição importante para uma docência que promova não apenas o desenvolvimento intelectual e escolar do estudante, mas também o desenvolvimento emocional e social.

Assim, é preciso olhar com atenção para o ambiente escolar, analisar quais são suas necessidades e oferecer as ferramentas necessárias para que esses profissionais tenham mais qualidade de vida, condições básicas de trabalho e aprendam a lidar com os desafios da rotina escolar. É urgente a valorização desse profissional. Não à toa, as sociedades reconhecidas mundialmente por seu êxito no sistema educacional, tal como a Finlândia³, obtêm esses resultados de excelência em virtude, entre outros fatores, do prestígio social, da autonomia e das condições de trabalho favoráveis que são dadas aos professores.

Nesse sentido, a valorização dos professores inclui dar a oportunidade a esses profissionais para que tenham recursos para lidar com suas emoções e as dos alunos abertamente.  Que saibam acolher e encorajar, acalmar e indignar, encantar e instruir. Isso os aproxima dos alunos e os ensina a fazer o mesmo. Assim, uma vez que o medo e a vergonha, a raiva ou a tristeza podem ser expressas e compreendidas em sala de aula, o clima emocional da escola melhora como um todo, aprimorando a convivência, o diálogo entre professores e alunos, e potencializando a aprendizagem.

Referências

¹https://noticias.r7.com/sao-paulo/socos-pontapes-e-assedio-como-professores-enfrentam-a-violencia-06072018

²https://www.revide.com.br/blog/elaine-assolini/

³http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v22n70/1809-449X-rbedu-22-70-00802.pdf