Na década de 60, psicólogos da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, realizaram um experimento que se tornou clássico: o teste do Marshmallow. O intuito foi testar a habilidade de crianças em idade pré-escolar de conter seus impulsos e adiar gratificações imediatas em troca de gratificações melhores, só que futuras. Teoricamente, aqueles que se saíssem melhor nessa tarefa, ou seja, aguardassem 15 minutos para comer o doce oferecido, teriam melhores chances de ter um desempenho acadêmico superior, arranjar bons empregos, se envolverem em relacionamentos mais duradouros, tamanha a importância de saber esperar e regular as próprias emoções. Após um novo estudo recente, notou-se algo que contraria o senso comum: as crianças de hoje conseguem esperar mais do que as da década de 60. Mas será mesmo que uma geração tão conectada e imediatista se mostra mais preparada para os desafios do século XXI?

Especula-se que uma provável resposta está na ampla gama de estímulos a que os pequenos estão expostos hoje em dia, o que, espontaneamente, lhes obrigaria a pensar mais para escolher o que querem jogar, do que brincar, o que fazer. Outros, dizem que a escolarização precoce amadurece certas capacidades mais rápido, como o importante recurso de esperar; ou que as novas tecnologias têm ajudado a canalizar seu esforço: por exemplo, para passar de fase em um videogame é necessário tentar, errar, tentar novamente etc.

Por outro lado, o fato é que a tecnologia, de modo geral, acelerou – e muito! – o ritmo de nossa vida. Alguns adolescentes expressam uma frustração desproporcional ao ter que esperar, por exemplo, por um ou dois minutos uma página de internet ser carregada em seus smartphones. Ao passo que, há poucas décadas, uma criança que quisesse comer, digamos, uma pamonha, teria de passar por um ritual de um dia inteiro, acompanhando seus familiares, para colher ou comprar o milho, ralá-lo, cozinhá-lo e ainda esperar a comida esfriar sob a influência provocativa do doce aroma que infestava a casa. Quando o quitute estivesse pronto, ainda teria de dividi-lo com muitos irmãos e outros familiares, esperando sua vez. Sobre a capacidade de tolerar frustrações e aguardar gratificações, qual seria a melhor geração, a atual ou a passada? Há uma melhor e outra pior, ou são apenas diferentes?

Comparações sobre gerações à parte, pode ser tentador localizar na própria criança, isto é, em seu interior, a partir de princípios como “temperamento” ou outras explicações genômicas, a capacidade “inata” de ser mais paciente, calma, prudente e resiliente, que a ajudarão a desenvolver recursos internos fortes o suficiente para enfrentar os desafios inerentes da vida. Esses princípios explicativos biológicos podem trazer alguma segurança e conforto para alguns pais e profissionais, mas, sempre ao custo de restringir possibilidades “relacionais” de atuação e desenvolvimento dessas habilidades. Na realidade, é possível ensinar e aprender a ser emocionalmente forte.

Promover recursos que possibilitam o desenvolvimento socioemocional de crianças, jovens e adultos é um dos caminhos para a construção de pessoas saudáveis emocionalmente, com habilidades para lidar com frustrações e adversidades da vida. Por isso, levar um programa sistematizado de educação socioemocional para as escolas, para que isso seja trabalhado a partir da primeira infância, é imprescindível para um pleno desenvolvimento humano físico, mental e social e para que todos tenhamos mais condições de nos tornarmos mais tolerantes, felizes e emocionalmente fortes.