Atualmente, as escolas têm enfrentado uma série de questões reincidentes. Indisciplina, comportamentos que perturbam e interrompem o fluxo da aula, bullying, evasão escolar, transtornos depressivos ou de ansiedade, comportamentos autolesivos, aumento da taxa de suicídios entre adolescentes e todo tipo de comportamentos de risco. A crise da autoridade docente e o intenso mal-estar decorrente do profundo esgotamento emocional a que esses profissionais estão submetidos resulta em um cenário bastante preocupante para a realidade do ensino brasileiro e mundial.

Diante disso, as instituições escolar e familiar acabam prisioneiras de um ciclo vicioso sem-fim de culpabilizações mútuas. Afinal, a quem cabe a responsabilidade? Por se tratar de um problema persistente e complexo, não há caminhos curtos ou respostas simples. Enquanto as famílias e as escolas não superarem essa lógica e entenderem que uma precisa da outra, de forma conjunta, as muitas expressões desse problema profundo e estrutural que prejudica a educação avançará galopante. E, se a qualidade da educação, um dos processos mais fundamentais para a transmissão da cultura e do conhecimento está em risco, nossa própria sobrevivência como espécie também está.

Em reação a esse quadro de sintomas agudos que demonstram que as escolas têm sofrido um forte estresse há muito tempo, estudiosos e cientistas de diversas áreas como psicologia, pedagogia, neurociência e sociologia, em um esforço transdisciplinar, conceberam a educação socioemocional. Em resumo, trata-se de um repertório de recursos cientificamente validados que ajudam educadores e alunos a desenvolverem competências para reconhecerem, compreenderem, expressarem e regularem suas próprias emoções e as dos demais, adquirindo comportamentos e atitudes mais positivas, favorecendo um clima emocional harmonioso na escola.

Isso funciona como uma forma de prevenção ampla contra várias das questões citadas e de promoção de saúde mental no ambiente escolar. Com isso, os educadores têm tempos e estratégias definidas para conhecerem melhor seus educandos, seus interesses, medos, aspirações, potencialidades e dificuldades. Isso faz com que seja mais fácil manter uma relação estreita, respeitosa, espontânea, de troca mútua, entre toda a comunidade escolar. Ensinar às novas gerações como serem mais criativas, cooperativas, compassivas e empáticas é essencial para a sobrevivência humana, em um mundo cada vez mais imprevisível e globalizado.

Desse modo, falando, ouvindo e expressando sentimentos, aprendendo a lidar com eles, a afetividade pode voltar a ocupar o devido espaço na aprendizagem. Em vez de as escolas dedicarem atenção exclusiva a conteúdos, práticas e políticas que constantemente não têm dado resultados satisfatórios – porém, são cobrados pelas diretrizes de ensino e avaliações padronizadas, como alguns vestibulares – poderiam voltar uma parcela de sua atenção, pelo menos em alguns momentos da rotina escolar, às necessidades afetivas dos educandos e professores. Assim, a partir de uma rotina estabelecida, os conteúdos e os saberes transmitidos pela escola iriam ser “revestidos” de sentimentos, de prazer, de ludicidade e subjetividade.

Implementar as práticas de educação socioemocional não representa somente uma melhora no desempenho acadêmico dos educandos, mas significa promover um espaço de treinamento para um futuro mais pacífico e sustentável, em que nossos descendentes terão não apenas capacidades cognitivas, mas também afetivas. É preciso sentir para aprender. A emoção é um poderoso veículo, que mobiliza a memória, a atenção, o interesse, a curiosidade – características que toda criança demonstra espontaneamente – e todas as nossas capacidades. Razão e emoção não são inimigas, mas complementares e essenciais para o pleno desenvolvimento humano e para a construção de um mundo mais pacífico e generoso.